A Vida Futura

 A vida futura 

“Por essas palavras, Jesus se refere claramente à vida futura, que ele apresenta, em todas as circunstâncias, como a meta na qual deve chegar a Humanidade, devendo ser o objeto das principais preocupações do homem sobre a Terra. Todas as suas máximas se voltam a esse grande princípio. Sem a vida futura, na verdade, a maior parte de seus preceitos de moral não teriam nenhuma razão de ser. É por isso que aqueles que não acreditam na vida futura, crendo que Ele apenas falava da vida presente, não os compreendem ou acham pueris”- Evangelho 2º o Espiritismo - Cap.2 


A vida futura é algo que sempre está no imaginário da humanidade. Muitos acreditam que não existe uma vida além da matéria. São céticos em pensar que há algo depois do que se vive hoje. Felizmente, para uma maioria, a crença em algo além já está solidificada. Isso demonstra um certo despertar da humanidade com maior consciência da vida eterna. 

Entretanto, o entendimento de como é essa vida futura ainda é bastante vago, uma verdadeira incógnita para praticamente toda a humanidade. 

Há diversas teorias, que vão desde o conhecido conceito de céu, inferno e purgatório até vida espiritual sem limites físicos, contornos, como se tudo fosse algo sem formas. Talvez, num futuro até possamos comparar a algo palidamente parecido com esse conceito, mas por hora, a humanidade ainda não tem condições de adentrar nessa realidade distante e pouco compreendida. 

O Espiritismo trouxe a oportunidade de discutir, estudar e compreender melhor o que seria essa vida futura. Com a literatura de André Luiz e os demais autores que vieram depois, criou-se no meio espírita a certeza de que há cidades espirituais boas e ruins. Onde espíritos se reúnem ali de acordo com sua elevação ou falta dela.  

Os conceitos de céu, inferno e purgatório teriam sido atualizados para esse tipo de organização, mais lógica do que o conceito da igreja, por permitir, por exemplo, a movimentação dos umbrais às colônias benfazejas. O que já é um avanço de pensamento considerável e de acordo com a justiça divina.  

Entretanto, há um movimento que questiona tais narrativas literárias, afirmando que seriam apenas informações baseadas numa realidade, mas que não condizem exatamente com a realidade espiritual. Defendem esse pensamento baseado no fato de que Kardec em momento algum citou sobre colônias-cidades espirituais, embora deixe claro que há uma vida posterior, espiritual, onde os espíritos continuam vivendo, evoluindo, aprendendo, sorrindo, amando. E sua condição espiritual depende de sua evolução íntima. 

O objetivo aqui não é dar respostas prontas e acabadas. Mas instigar a reflexão em cada um de vocês. Kardec discorreu brevemente sobre “mundos transitórios” onde espíritos errantes, ou seja, aqueles que desencarnaram permaneceriam entre as encarnações: “Espírito errante, que aspira a novo destino, que espera.” Não sendo um lugar com localização geográfica específica. Esse espírito poderia ficar horas ou séculos nessa condição: “a encarnação é um estado transitório”, ou seja, a vida espiritual é o estado real na evolução de todo ser. Desse último pensamento, surge outro, em que a vida na matéria é a cópia da vida espiritual. 

Na questão 234 do Livro dos Espíritos ele pergunta se há mundos que servem de estações ou pontos de repouso aos Espíritos errantes e a resposta é sim, pois há mundos destinados aos seres errantes que lhes servem de habitação temporária de acordo com a natureza evolutiva daqueles espíritos que desfrutaram maior ou menor bem-estar. 

Entretanto, quando ele se refere a esses mundos, os espíritos informam que são transitoriamente estéreis na superfície. Nesse caso, fica o questionamento: Essa esterilidade é considerando o lado físico desses mundos, ou considerando a condição espiritual daquele orbe? Parece claro que eles se referem ao aspecto físico, pois que mais à frente, os Espíritos afirmam que a própria Terra já foi um desses mundos transitórios, durante a sua formação. 

Outro ponto importante para se pensar é que os Espíritos afirmam continuar estudando, aprendendo, e que percorrem mundos, trabalham pelo progresso individual e coletivo, auxiliam indivíduos, famílias, fazem reuniões entre outras atividades. 

Na questão 1017, Kardec explica que expressões trazidas pelos espíritos como: quarto céu, quinto céu, cidade das flores, cidade dos eleitos, primeira esfera, segunda esfera, terceira esfera” poderiam ser forma alegóricas para representar estados ou graus espirituais, e não poderiam ser consideradas de forma literal. Pois Kardec descreve que o céu não seria um lugar específico, mas o espaço universal, os planetas, as estrelas e os mundos superiores e os diferentes graus de purificação dos espíritos. Ou seja, não seria uma localização geográfica. 

Mas por que então, Jesair, você não dá logo o seu testemunho de como você vive no plano espiritual e finaliza qualquer dúvida sobre o assunto? Seria fazer o mesmo que André Luiz fez e ainda assim, há dúvidas! 

O objetivo aqui é instigar vocês encarnados a raciocinar, o que Kardec fez muito enquanto esteve entre vocês! Assim, continuemos com o raciocínio:  

Primeiramente temos que fazer um exercício ao considerar o que Kardec deixou registrado, escrito e portanto, afirmou. Dito isso, não significa que se ele não descreveu é algo que poderia ser negado por ele.  

Percebemos pelos escritos do Codificador, que ele não entrou em detalhes sobre a individualidade dos espíritos. Até porque, ainda eram conceitos iniciais. Então, organizou por exemplo, a “Escala Espírita”. Um conceito em que ele faz divisões de forma didática para classificar o estado evolutivo dos espíritos encarnados e desencarnados. Um exemplo dessa escala é quando ele afirma que os “espíritos bons” são unidos pelo amor e essa união é fonte de felicidade para eles. 

Outro bom exemplo, é quando Kardec menciona as atividades que na erraticidade, ou seja, no plano espiritual, os espíritos realizam: “percorrem mundos; estudam; se preparam para uma nova encarnação; trabalham pelo progresso; auxiliam homens de gênio; protegem indivíduos, famílias, reuniões, cidades, povos; atuam sobre fenômenos da natureza.” Tudo são atividades que há diversas possibilidades de como e onde são feitas. 

Contudo, Kardec só menciona sobre os mundos transitórios, que como já foi analisado, são mundos em formação, ou seja, a Terra já esteve nesta condição, hoje não mais. Assim, os mundos transitórios mencionados por ele, não podem ser a mesma coisa de Colônias Espirituais descritas por autores como André Luiz, que afirma, por exemplo, que Nosso lar seria uma cidade espiritual que tem o papel de ser uma “zona de transição” que reúne espíritos mais ou menos bons (uns mais e outros menos) para morar, estudar, trabalhar, evoluir, se preparar para uma nova encarnação. O que corresponde a ideia de erraticidade trazida por Kardec. 

Na pergunta 1012 do Livro dos Espíritos ele pergunta se haveria no Universo lugares específicos para gozos e penas dos Espíritos? A resposta é clara: “nenhum lugar circunscrito ou fechado existe especialmente destinado a uma ou outra coisa.” E acrescenta: “os Espíritos de uma mesma ordem se reúnem por simpatia.”  

Com isso, pode-se concluir que o estado moral não depende de um endereço físico?  

Mesmo que a resposta seja não, isso não significa que não existam “locais” de sofrimento e felicidade. Na mesma questão citada acima, há um trecho interessante na resposta: “por toda parte há Espíritos ditosos e inditosos.”  

O fato de Kardec não ter estabelecido que haveria cidades espirituais, conhecidas posteriormente como Colônias - termo de André Luiz - não significa que tais descrições feitas por esse e outros autores espirituais podem ser simplesmente negadas, pois elas se baseiam nos conceitos iniciais do Codificador: continuidade da vida individual e coletiva, progresso, erraticidade, momento de preparação para uma nova existência física, trabalho, estudo, diferentes graus de evolução espiritual.  

É possível questionar vários aspectos das descrições, mas negar completamente a ideia de locais (mesmo que sem endereços físicos) pode ser um equívoco apressado.  

Para chegarmos ao final dessas reflexões, podemos levantar alguns questionamentos e hipóteses que deveriam ser aprofundadas, estudadas filosoficamente e também com métodos científicos, características essenciais do Espiritismo: 

  • Tais descrições poderiam ser, em partes, alegorias utilizando uma linguagem mais humana, com conceitos que os encarnados poderiam se afinizar e compreender melhor num primeiro contato literário? 

  • A ideia de comunidades de espíritos no plano espiritual está presente na codificação quando Kardec e os Espíritos afirmam que eles se aproximam segundo a semelhança ou discordância de sentimentos. Sendo os espíritos, desencarnados, ou seja, provindos do mundo físico, onde moravam em cidades, vilas, comunidades organizadas, fica o questionamento: será que naturalmente eles não poderiam dar continuidade a esse tipo de organização?  

  • E se há esse tipo de organização, não seria possível que esses espíritos se reúnam num local específico?  Pois que, embora os Espíritos não tenham forma definida, os desencarnados, principalmente os recentes, ainda mantêm o invólucro intermediário conhecido por perispírito, em que mantém a forma definida, como um corpo para o espírito.  

  • Essa reunião dos espíritos com forma espiritual (perispírito) se daria num local específico? Haveria uma Terra perispiritual? Seria um mundo paralelo? Outra dimensão? Isso é possível ser averiguado cientificamente?  

  • Filosoficamente faz sentido a ideia narrada por André Luiz e outros autores espirituais? E havendo sentido, será que toda a narrativa pode ser considerada com fidelidade dos fatos? Ou haveria adaptações devido à época em que o espírito ditou ao médium? Mesmo sendo Chico Xavier, um médium fantástico, ele mesmo admitiu diversas vezes que “interferia” nas mensagens, pois tinha suas limitações humanas de encarnado e também de conhecimento sobre o mundo. 

Poderíamos tecer diversos outros questionamentos. E sim, como afirmamos acima, a ideia aqui não é trazer uma resposta pronta, acabada. Primeiro, por não sermos “o dono da verdade”, segundo pelo fato de que não é possível aqui trazer provas, numa psicografia intuitiva. O médium também tem suas limitações. E por fim, o objetivo principal é instigá-los a pensar, refletir e quem sabe estimular a curiosidade filosófica e científica de vocês, encarnados. Quem sabe assim, o Espiritismo ganhe novos atores e atrizes que busquem o que Kardec buscou enquanto encarnado: observar os fatos, pesquisar com método científico, pensar filosoficamente de forma positiva para que a humanidade cresça. E que esse conhecimento traga à humanidade, uma vontade legítima de se melhorar em todos os aspectos, como grupo que busca a evolução não só do intelecto, não só moral, mas total! 

Esse foi o grande legado de Kardec e que tem sido esquecido por muitos seguidores da Doutrina Espírita, que tem se acomodado no que já foi escrito, tomando tudo ou quase tudo como verdade, sem considerar contextos, realidades e dificuldades de compreensão da vida material, quanto mais a espiritual. Ah, e antes que se perguntem, o que a busca dessas respostas pode contribuir com a minha evolução para me tornar uma pessoa, um espírito melhor, basta raciocinar que o conhecimento salva vidas em todos os lugares e em todos os tempos, melhora as condições de vida das pessoas e oportuniza a conquista da igualdade entre os povos. Sigamos sempre em frente sem perder a curiosidade sobre a vida! 

 

Jesair 

 

Fontes: Cap.II do Evangelho Segundo o Espiritismo; Coleção de Obras da Vida Espiritual de André Luiz e Chico Xavier; e Livro dos Espíritos.

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