Privilégio

 

Privilégio

A sociedade tem delineado outras configurações nas últimas décadas, motivada por revoluções social, financeira, tecnológica, moral, étnica, cultural, principalmente.

Aquele modelo estruturado e com poucas possibilidades de mudanças, com pouca movimentação de atores sociais, já não cabe mais e ainda bem!

A aparente harmonia de antes, escondia dores e sofrimentos inenarráveis que só aqueles que eram oprimidos teriam a confiabilidade em prestar todos os esclarecimentos. Já os que eram, e ainda são privilegiados, pela condição erroneamente superior aos demais, viviam no mar da ilusão de que tudo era equilíbrio e paz a todos os corações. Sim! Ilusão, porque, a única paz que realmente havia era a deles próprios, os que eram, e muitos ainda o são, expressamente privilegiados.

Notem aqui que, esta reflexão é justamente para tirar-nos do conformismo que aprendemos desde cedo a aceitar, inclusive no meio religioso, tratando como normal, várias injustiças, desde as menores, até às maiores…

O privilégio branco, o privilégio do homem sobre as mulheres, sobre os idosos, sobre as crianças… O privilégio dos ricos e poderosos, o privilégio das heranças… E dentre estes privilégios, talvez o mais combatido ainda hoje: o do homem branco perante os demais…

Inclusive, esse privilégio é muito presente dentro do movimento espírita. Basta parar um pouco e olhar, de uma forma que a ciência nos propõe a fazer, de forma estranhada, afastada, de fora e não do ponto de vista de quem está dentro. É um exercício simples, mas nem por isso fácil.

Vamos procurar fazer um breve teste. Imagine você, que chega a um lugar longínquo, com cultura diferente da sua, mas que você consegue compreender a sua linguagem e daí, começa a observar as pessoas que seguem uma doutrina que tem por princípio, o cristianismo e a comunicação com os mortos, na vida sucessiva e na justiça divina.

Temos as crianças, os idosos, os adultos. Temos um grupo onde temos mulheres e homens de todas as idades, de todas as cores. Eles conversam sobre um assunto sério da vida. Sejam sinceros. Qual destes são mais “ouvidos”, ou seja, tem as opiniões mais consideradas de forma positiva? É um exercício mental, onde você mesmo o você mesma irá responder em sua mente:

O homem branco, “bonito”, bem arrumado ou o homem preto, “bonito” e bem arrumado?

O homem branco bem arrumado ou o homem branco desarrumado ou velho?

O homem branco bem arrumado ou a mulher bem arrumada?

O homem branco bem arrumado e de linguagem culta e fala bem-feita ou o idoso, bem arrumado e com uma fala simples e com erros?

O homem branco bem arrumado ou a criança inteligente?

Depois, podemos comparar… A mulher branca, adulta e bonita bem arrumada ou a mulher idosa?

A mulher branca, adulta, bonita bem arrumada ou a mulher branca, que não é considerada bonita, embora bem arrumada?

A mulher branca, adulta, bonita bem arrumada ou a criança?

A mulher branca, adulta e bonita bem arrumada ou a mulher preta, adulta, bonita e bem arrumada?

A mulher branca, adulta, bonita bem arrumada ou a mulher preta, adulta, bem arrumada, mas considerada “feia” pelos padrões estéticos, mas que é muito inteligente?

O menino branco, bonito, bem arrumado ou o menino branco, “feio” e desarrumado?

O menino branco, bonito bem arrumado ou a menina branca e bonita arrumada?

O menino branco, bonito bem arrumado ou o menino preto, bonito e arrumado?

O menino branco, bonito, bem arrumado, ou menino preto, “feio” e desarrumado?

O menino branco, bonito, bem arrumado, ou a menina preta, bonita e arrumada?

O menino branco, bonito bem arrumado, ou a menina preta, “feia” e desarrumada?

Poderia ir além e provocar diversas situações possíveis. É apenas um exercício, e ainda nem nos referimos a tudo, todas as possibilidades. Dentro da mediunidade, já pararam para pensar por que a maioria dos “grandes” médiuns são homens? E destes, por que a maioria é branca? Embora tenhamos alguns exemplos maravilhosos de médiuns mulheres, mas conhece alguma médium preta reconhecida? Talvez uma ou outra…

E nas comunicações… Por que damos ouvido apenas às comunicações de santos, de espíritos notadamente reconhecidos como homens ou mulheres que tiveram alguma posição de influência no passado? E já pararam para pensar que geralmente os espíritos femininos que são ouvidos foi porque tiveram uma vida de sacrifícios, como se espera sempre das mulheres e não porque foram influentes politicamente, socialmente demonstrando força, posições superiores? E quanto aos espíritos dos pretos velhos, pretas velhas, caboclos, índios? Eles só se manifestam nos centros de umbanda e candomblé? Eles seriam espíritos inferiores por sua origem ou imagem apresentada? Ou só são considerados inferiores pelo preconceito social e racial?

Talvez essa seja uma reflexão tardia para o movimento espírita (que é decorrente do Espiritismo, e não necessariamente a doutrina em si), mas necessária para sua sobrevivência. O Espiritismo é em sua essência o futuro das religiões, justamente porque em sua essência não há privilégios, e não é o que o movimento tem demonstrado. Façamos logo este exercício com sinceridade no sentido de mudar, lembrando as sábias palavras do codificador: “o verdadeiro espírita se reconhece pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações”, ou seja, por modificar o que não condiz com o bom senso da evolução moral, com os princípios trazidos pelo Mestre Galileu. Sigamos em frente, melhorando e reconhecendo o que deve ser melhorado, hoje e sempre!

 

Jesair

 

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