Os Gozos Terrenos

 Os Gozos Terrenos


“Deus não condena, portanto, os gozos terrenos, mas o abuso desses gozos, em prejuízo dos interesses da alma. É contra esse abuso que se previnem os que compreendem estas palavras de Jesus: O meu reino não é deste mundo. Aquele que se identifica com a vida futura é semelhante a um homem rico, que perde uma pequena soma sem se perturbar; e aquele que concentra os seus pensamentos na vida terrestre é como o pobre que ao perder tudo o que possui, cai em desespero.” (Evangelho 2º o Espiritismo, Cap.2)

A humanidade tem chegado a um ponto interessante de desenvolvimento moral, embora, há quem acredite que está tudo perdido. Entretanto, o despertar de muitas consciências está cada vez mais claro e evidente na sociedade. 

Infelizmente, na história terrena é recorrente o fato de que as crenças, independentes de quais sejam elas, acabam, cedo ou tarde, tornando-se limitadoras. Em certos casos, cumprem o seu papel para que diversas, milhares mentes não se corrompam. Isso é importante para um primeiro momento, no qual a humanidade ainda encontra certa imaturidade moral. 

O medo da condenação eterna e irrevogável, salvou diversas vidas, evitou diversos desastres por um lado, conquanto, por outro, foi e é, até hoje, responsável por diversos dramas e incontáveis injustiças.

Antes que concluam erroneamente, que nossa intenção aqui é dizer que as religiões deveriam ser extintas, o que aqui queremos refletir é que na verdade, elas precisam deixar de ser limitantes do progresso, por falta de coerências com seus princípios. 

Voltando-nos apenas para o cristianismo, mais precisamente para o Espiritismo, percebemos que desde seu princípio, a mensagem é clara de que a Força Criadora de tudo o que existe não condena o gozo, ou seja, a alegria e o prazer da vida. Entretanto, alerta para que não haja abusos que atrapalhem a evolução moral de cada ser e dos que estão à nossa volta.

É preciso ter muito cuidado ao considerar essa afirmação, incluindo a lembrança do que o Mestre nos deixou de que o “meu reino não é deste mundo”. Está no imaginário de muitos espíritas, talvez ansiosos por se adequarem à mensagem consoladora de que a “felicidade não é deste mundo” e para estar com Jesus, que se deve sofrer "sempre" até que sejamos “merecedores do céu”.

Tais pensamentos, palavras e determinismos para a vida das pessoas chega a ser cruel! Paremos um pouco para pensar: Deus, a força criadora de todo o Universo, de toda a humanidade, que tem cada um de nós como seu filho, gostaria mesmo que nós encarnássemos em corpos limitados apenas para sofrer, para resgatar débitos e assim nos tornarmos anjos na vida verdadeira? Responda você mesmo, como filho ou filha, como pai ou mãe, se gostaria de ter um pai assim? Que em nome de uma justiça divina, determinasse que o melhor caminho para a evolução é o sofrimento para pagar todo o mal realizado!

No próprio Evangelho Segundo o Espiritismo, há um questionamento parecido. Será que Deus agiria assim, se nós que somos seus filhos amados, quando temos a paternidade ou maternidade como condição atual de vida, sabe perdoar nossos erros e busca nos oferecer novas oportunidades sempre, por que para Deus seria diferente? É claro que, quando necessário, há que haver corrigenda das rotas. Natural. É claro que há a lei de causa e efeito! Ação e reação! Não estamos aqui para querer alterar e anular nada disso, pois nem temos esse poder e muito menos essa pretensão. As consequências fazem parte da vida naturalmente. De nossas escolhas. 

O que queremos colocar aqui é que muitos cristãos, e agora, muitos espíritas têm encarado o gozo terreno como algo equivocado. Errado... Que não se pode ter momentos felizes, ou que qualquer tipo de conforto, novas tecnologias, direitos para todos vai contra a evolução! Se você, eu ou outro à sua volta tem melhores condições de vida e as goza, sem abusos, sem humilhações e ainda se torna responsável pelos que estão à sua volta, auxiliando e compartilhando lições, e até mesmo recursos, não existe maldade, injustiça e nem mesmo erro em gozar desta condição. Há erro sim, naqueles que invejam os que assim se encontram, que os condenam e até mesmo desejam intimamente que percam a aparente dádiva dos céus, quando na maioria das vezes é só mais uma experiência evolutiva da qual podemos já ter vivido anteriormente ou que ainda viveremos!

Então, nosso papel de espíritas, de cristãos é ser rico de coração, não invejando a condição do outro, não desejando o mal em nosso íntimo e mais, quando chegar a nossa vez, é oferecer o nosso melhor, gozar sim o que temos, pois será uma forma de gratidão ao Criador, mas sempre com bom senso, respeito e um olhar de justiça social e moral! Pode ser complexo, mas é possível! Assim, o reino de Jesus estará realmente esperando-nos, pois teremos feito o melhor com o que recebemos de empréstimo da vida, da espiritualidade e é claro, da Força Criadora do Universo!

Jesair

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